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Viver nos Açores, por Maria Vicent

Tenho andado a pensar no que torna estas ilhas tão especiais, já que assim que as pisamos, não queremos ir embora. Depois de 18 meses a viver nos Açores, acho que finalmente encontrei uma resposta.

Cresci numa pequena aldeia junto à costa e desde a minha janela podia-se ver o mar. Tive uma infância muito feliz: recordo quando corria pelos campos atrás das galinhas; quando roubava pêssegos e figos; e quando dormia à sombra das árvores. Viver nos Açores assemelha-se à vida na minha terra.

Ao viver em contacto com a Natureza, desenvolvemos uma certa sensibilidade pelo meio ambiente e a sua conservação. A riqueza natural é uma das maiores atracções das ilhas, e por isso chegam pessoas do mundo inteiro para subir as suas montanhas e mergulhar nas águas cristalinas do Atlântico.

Em Julho de 1997, uma revista espanhola publicou um artigo: “Azores, ocultas por el océano”. Este centra-se na experiência que uma jornalista e um fotógrafo tiveram enquanto viajavam pelas ilhas. O curioso deste artigo é que podia ter sido escrito hoje. Vinte e um anos depois, os prados continuam a cheirar a feno e erva molhada, as nuvens seguem o seu caminho no céu e as criptomerias dançam ao ritmo do vento.

Viajar pelo arquipélago, não só me deu a oportunidade de aprender sobre a relação entre as pessoas e o que está à sua volta, como também a sua forma de viver. Os açorianos são pessoas muito amáveis, sempre dispostos a oferecer um lugar à mesa, com uma boa história a acompanhar. Eu tive a sorte de estar rodeada por pessoas maravilhosas que vivem e trabalham para que o arquipélago cresça de forma sustentável.

Os Açores são uma região que respeita acima de tudo a sua cultura e o seu idioma. De onde venho, expressar a nossa identidade como povo tem uma conotação negativa e confunde-se muitas vezes com nacionalismo. Até agora, nunca tinha conhecido pessoas tão comprometidas com a sua tradição e o seu património, como os açorianos. Admiro a sua facilidade em partilhar momentos entre eles, desde navegarem em botes baleeiros ou caminharem numa procissão.

Não tenho dúvidas que aqui cada dia se celebra a vida! Isto foi o que me fez sentir em casa, mesmo estando a milhares de quilómetros de distância. Tenho a certeza que muitas coisas mudaram desde Julho de 1997, mas o principal continua a sentir-se nas ilhas. A verdade é que as pessoas chegam cá e encontram sempre uma razão para ficar. Sempre que pergunto a alguém qual é a razão, a resposta é sempre a mesma: “porque aqui vive-se melhor!”.

por Maria Vicent (de Valencia)
– comunicação na Ourisland

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